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Tempo e luto

Atualizado: 21 de jul. de 2023



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Imagem gerada por IA

Tudo na natureza ostenta beleza, contudo, tudo na natureza encontra o seu fim, logo, tudo na natureza é terrível. Este conceito emergiu numa discussão entre dois amigos durante um passeio pelos Alpes Suíços. Um deles era um bem conceituado psicanalista, e o outro, um poeta também já amplamente reconhecido naquela época. O primeiro era Sigmund Freud, e o segundo Rainer Maria Rilke. A narrativa deste passeio encontra-se registada num texto de Freud datado de 1915, intitulado "Sobre a Transitoriedade".


O passeio

Nas palavras de Freud o passeio é descrito da seguinte forma: “Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno, um poeta jovem mas já famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraia disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade.” “Sobre a Transitoriedade”. Texto de S. Freud (1916/1915). Retirado do vol XIV das Obras Completas – Ed. Imago.


Luto e Transitoriedade

A ideia de que o fim das coisas as envia para o nada, tanto nas artes, como na natureza, como nas sensações, é rejeitada por Freud. Parece-lhe ingénuo pensar que a beleza não consegue escapar ao nada e ao poder da destruição. Na natureza, por exemplo, existe uma renovação constante e uma beleza também ela constante. A flor da Dama-da-Noite (Epiphyllum Oxipetalum) dura uma só noite, isso não lhe retira beleza. É precisamente nessa escassez de tempo que reside a beleza das coisas. A flor morre mas com ela não morre a beleza das flores, essa transita de flor em flor em direcção ao infinito. É uma beleza infinita, tão infinita como a presença em nós, das pessoas que perdemos. Quando alguém que amamos morre, o amor que lhe era dirigido transita para nós e fica connosco até encontrar espontaneamente um novo alvo, é desta forma que se faz um processo de luto. A transitoriedade do amor é porém extremamente dolorosa, todos o sabemos.

A conversa com Rilke ocorreu durante o início da Primeira Guerra Mundial, num tempo muito difícil no qual a maior parte das pessoas já estava de luto por alguém que tinham perdido em combate. Era por esta razão compreensível a revolta do poeta com o fim das coisas em seu redor. Porém, a preocupação intelectual com o fim das coisas era na verdade uma forma de fugir à dor do luto.

Para o poeta, a impossibilidade de apreciar eternamente a natureza retira-lhe valor. Para o psicanalista, a impossibilidade de investimento nas pessoas que perdemos é compensada por um maior investimento em nós próprios, o que não lhes retira valor.


Eternidade no pulso

Há pessoas que nunca deixam de existir dentro de nós, mesmo após a sua morte, os relógios que sobrevivem aos seus donos recordam-nos isso mesmo. Na campanha Generations da marca de relógios Patek Philippe há um slogan acerca deste assunto: “Nunca somos verdadeiramente donos de um Patek Philippe. Apenas cuidamos dele para a geração seguinte”. A transição dos relógios entre gerações permite continuar o espírito da família de uma forma muito especial. Olhamos para um relógio e sabemos que ele, como nós, luta pela vida. Se for resistente identificamo-nos com a sua resistência, se for preciso identificamo-nos com a sua precisão e a sua beleza passa a ser nossa também. Os materiais dos relógios são contudo perecíveis, sabemos que o ciclo de renovações, por mais eficaz que seja o nosso relojoeiro, tem um fim. Por esta razão quando os relógios são muito antigos usamo-los menos, garantimos apenas o seu funcionamento. É o jogo da eternidade, queremos os melhores relógios, fazemos tudo para que durem para sempre.

Seja de Dama-da-Noite em Dama-da-noite, seja de geração em geração, há alguma coisa que transita, é aí que reside a beleza de que Freud falava e que Rainer Maria Rilke se recusava a perceber.


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