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Rumo ao Equilíbrio




Sentada à beira mar numa tarde ventosa com o mar picado, não pude deixar de reparar num pai com a filha a entrar no mar com uma prancha de paddel surf. Pareciam-se fisicamente, ambos esguios de constituição atlética e pele clara. Subiram ambos de joelhos para a prancha, remos numa das mãos, pai de cabelo branco à frente, filha de cabelo apanhado num rabo de cavalo, atrás. Começaram a remar tranquilamente até se afastarem o suficiente da zona de banhistas. Tentaram levantar-se os dois na prancha, primeiro um, depois o outro, à vez, num jogo de equilíbrio difícil de coordenar. E foi neste jogo que prenderam a minha atenção. Fizeram várias tentativas e, em cada uma delas, um ou ambos caíam à água. Entre risos voltavam a subir para a prancha, trocavam posições, alternavam a ordem de quem era o primeiro a levantar-se em busca de um equilíbrio mínimo para que o outro se levantasse também. Tentaram até que o cansaço ou o frio permitissem. Tentativas vãs. Resignaram-se a um passeio de joelhos na prancha até voltarem à beira-mar. Chegaram cúmplices e, entusiasmados partilharam as peripécias da experiência com os restantes familiares que tinham assistido divertidos, àquele jogo.


Enquanto observava os esforços daquele par, pensei em como aquela cena representava tão bem as relações entre pais e filhos. Uma busca permanente de equilíbrio, num desequilíbrio quase constante, um jogo de coordenação e encaixe entre duas pessoas, uma dança que necessita da medida exacta de força e leveza para poder ganhar asas e parecer fácil aos olhos de quem assiste. Tal como este pai e esta filha a tentarem levantar-se numa prancha de paddel assim é a construção da relação com os filhos, uma tentativa infindável para chegar a um equilíbrio que, ao não ser estático, está sempre na eminência de um novo desequilíbrio, de uma nova queda que os obrigará a experimentar novas abordagens, a reavaliar a situação, a posicionar-se de forma diferente para voltar ao tão desejado status quo. Enquanto o jogo de equilíbrio entre este pai e filha estava envolto em risos e descontracção pela própria situação, na construção da relação com os filhos a vivência dos equilíbrios e desequilíbrios vem, normalmente, acompanhada de angústia o que torna o caminho sinuoso e de difícil visibilidade. Essa falta de visibilidade, a incerteza do caminho, do que se encontrará pela frente e o que isso pode significar para a relação entre ambos, marcam a diferença desta vivência. Na situação descrita, pai e filha tinham um objectivo claro, comum, pôr-se de pé na prancha, não assumindo qualquer risco em caso de fracasso. Na relação pais filhos qual será o objectivo? Terem uma boa relação? E, se assim for, o que significa isto de ter uma boa relação? E qual o risco e consequência se não a atingirem? É aqui que, inevitavelmente, entra a nossa história e, com ela, as nossas necessidades, desejos, expectativas. mais ou menos conscientes. As expectativas, vinculadas a ideais de relação que provêm muitas vezes de necessidades, irão comandar o curso do caminho destas relações. Os pais, com as suas expectativas, tomam a dianteira da relação e do percurso com a responsabilidade de guiar, de decidir qual o caminho, de orientar e alertar para os perigos que existam, por serem quem tem mais experiência e que maior protecção pode dar. No entanto, os filhos não são apenas sujeitos passivos neste trilho, têm as suas necessidades, desejos, vontades e pouco a pouco vão construindo também as suas próprias expectativas. Se os pais que vão à frente no caminho não tiverem um olhar atento aos filhos que vão atrás e ao que eles vão dizendo, seja expresso por choros, birras, gargalhadas, palavras, gestos ou atitudes, que equilíbrio pode ser alcançado? É um caminho que vai ficando cada vez mais solitário e desequilibrado. É na conjugação entre necessidades e expectativas de ambos os lados que se pode almejar o equilíbrio. Os desequilíbrios que as relações vão tendo são estes permanentes reajustes de desejos e expectativas que a construção da relação traz e que levam o seu tempo para ser conjugados. Esta conjugação não é a idealizada por nenhum dos lados mas é a satisfatória para ambos. Uma terceira via, uma solução intermédia que satisfaz parcialmente cada uma das partes. E se há um desfasamento natural, a princípio, do peso que cada um tem na relação, este vai diminuindo à medida que os filhos vão crescendo e tendo mais força e mais peso, conseguindo expor melhor o que querem ou necessitam.

Voltemos ao exemplo da prancha. É mais difícil levantarmo-nos na prancha a dois que sozinhos. Se cada um deles tivesse ido sozinho ter-se-ia levantado e dado o seu passeio remando de pé na prancha. A dois tiveram de fazer um jogo de forças entre o seu peso, a posição em que estavam, o vento, a intensidade que davam ao movimento para se içar ou manter a prancha estável enquanto o outro se levantava. O esforço é infinitamente maior, mas nestas tentativas vão-se conhecendo, vão percebendo o peso de cada um, vão respeitando-se e adequando a dosagem certa de forças para que possam alcançar a estabilidade. Se analisarmos este exemplo da prancha ao longo do crescimento e construção da relação pais/filhos podemos ver cenários diferentes ao longo do tempo:

- quando os filhos são bebés subir para a prancha não suporia uma dificuldade acrescida em termos de peso ou força que teria se os pais subissem sozinhos. Não se levantariam na prancha com a mesma leveza tendo em conta o peso da responsabilidade de carregar um bebé e toda a carga emocional envolvida no movimento. No entanto, levantarem-se ou não na prancha depende quase exclusivamente dos pais;

- quando os filhos são crianças o peso que têm continua a ser relativamente pouco comparado com o dos pais e são estes os que têm de fazer a gestão do seu peso na prancha para que ambos se consigam levantar. Apesar de já não terem que carregar com o filho ao colo têm o desafio de gerir a sua irrequietude física, a agilidade ou o medo deste para que não sejam factores de desequilíbrio;

- quando os filhos são adolescentes há um ajuste de forças e pesos inevitável para que ambos se possam levantar na prancha. Apesar dos pais continuarem a ter uma maior preponderância na gestão deste equilíbrio, os filhos têm um papel de suma importância e relevância para o alcançar. É um jogo de forças, tenso mas necessário em que os filhos querem afirmar o seu peso, o seu espaço e o seu movimento e os pais, muitas vezes, a não quererem aceitar que já não têm o domínio total no desfecho daquela disputa.

- quando os filhos já são adultos deveriam existir condições para uma responsabilidade partilhada na forma como ambos sobem e se levantam na prancha. A rapidez com que se alcança o equilíbrio vai depender da forma como os pais foram dando espaço e peso aos filhos nas etapas anteriores. Quanto mais ajustes fizeram entre eles no passado, melhor se conhecem e mais preparados se encontram para saber a conta certa de peso de cada um para não se desequilibrarem na prancha.

Os filhos que ao longo deste processo não colocaram o seu peso na prancha, não reivindicaram o seu espaço, não quiseram nem necessitaram nada, são os que menos desequilíbrios vão gerar. No entanto, apesar de serem mais “fáceis” de lidar porque apenas assentem, obedecem e seguem, são os que mais tarde terão mais dificuldade em se levantar na prancha porque nunca se sentiram parte do processo, porque não tiveram oportunidade de aprender, por tentativa erro, a posicionar-se e a gerir o seu peso e o dos outros, porque não caíram. É importante que os pais deixem que os filhos experimentem, ganhem autonomia e peso na responsabilidade para que se possam sentir parte do processo, sabendo que a queda é inevitável, mas essencial. Dar olhar e voz às expressões dos filhos, apesar de difícil de lidar porque obriga a concessões, questionamentos, dúvidas e a um reequacionar constante, é o que levará as relações a crescerem até se atingir um equilíbrio mais ou menos estável.

A relação com os filhos constrói-se a dois caso contrário é uma relação dos pais com uma extensão de si próprios.

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